miércoles, 16 de noviembre de 2016

Cronistas y Jornalistas del Brasil




NÃO CHORES POR MIM, ARGENTINA (SEGUIDO DE VERSIÓN EN ESPAÑOL)


Niños del mundo, si cae Argentina - digo, es un decir - 
salid, niños del mundo; id a buscarla!
(*)
Quem vai cair neste domingo épico no Maracanã? Os brasileiros estão divididos, mas não é entre Alemanha e Argentina. Não! Aconselho os alemães a desconfiarem das vaias e dos aplausos. Não há brasileiro contra nem a favor da Alemanha, sequer um mísero torcedor. É que Hans e Fritz, embora batam um bolão, não despertam paixões em nós. Nossa paixão é azul e branca. Uma parte do Brasil torce CONTRA a Argentina. A outra, a FAVOR da Argentina. Só ela estará em campo. A Alemanha é apenas um detalhe. Podia ser o Kudumundistão, que não seria diferente.
É uma rixa velha. Os brasileiros amam odiar os argentinos, já os argentinos odeiam amar os brasileiros. Para a torcida brasileira, o jogo não é entre as seleções dos dois países, mas entre Amor x Ódio à Argentina. Há muitas razões para amar os hermanos. Escolho cinco nos campos da música, literatura, cinema, história e futebol. E uma forte razão para odiá-los: o ethos nacional.
Começo por onde? Ah, a música! Fica deslumbrado com a Argentina quem ouviu Mercedes Sosa, frágil como um segundo, cantar o clássico chileno de Violeta Parra Gracias a la vida com Chico, Caetano, Milton e Gal. Ou quem escutou La Lunita Tucumana de Atahualpa Yupanqui.
O amor pela música argentina é um patrimônio compartilhado por qualquer latino-americano que tem o privilégio de conhecê-la. Numa noitada em Santa Cruz de La Sierra, vi engenheiros bolivianos da Petrobrás chorarem com a lembrança de "un pueblito aqui, otro más allá" – de Catamarca - e despirocarem ao cantar guitarra nochera dos saltenhos Los Chalchaleros:
Mojada de luz, es mi guitarra nochera, ciñendo voy tu cintura encendida por las estrellas.
O velho amor
São tantos os ritmos: tango, milonga, chacarera, chamamé, gato, cueca, samba – sim, eles têm até samba, que lá é feminino. O Brasil certamente torceria pela Argentina se, no lugar do hino nacional - "al gran pueblo argentino, salud!" - os jogadores entoassem no Maracanã a Zamba de la Candelaria, de Eduardo Falú, nascida na boquinha da noite, “cuando la luna lloraba astillas de plata la muerte del sol”. Ou Caminito. Ou ainda a Tonada del viejo amor: “no tengo miedo al invierno con tu recuerdo lleno de sol”.
Descobri, numa peña em Buenos Aires, que o bairro de Aparecida e toda Manaus cabiam dentro de Santiago del Estero ouvindo Como um pájaro en el aire de Cuti e Roberto Carabajal.Lá estava dona Elisa e suas proezas culinárias:
-  As mãos de minha mãe / parecem pássaros no ar / Histórias de cozinha / entre suas asas feridas de fome.
Não foi sequer preciso recorrer a Gardel, o Martín Fierro do tango, para fazer um golaço na arena da música. No placar: Amor pelos argentinos 1 x 0 Ódio. O jogo podia terminar aqui, mas está apenas começando.
No meio de campo da literatura, os argentinos têm muitos craques que nos fazem amá-los. O maior deles, Jorge Luis Borges, romancista e poeta, produziu uma obra que contém todo o fervor de Buenos Aires e a história universal da infâmia: fantasias, delírios, jogos de espelhos, labirintos, sendeiros que se bifurcam. Cego e poeta, via no escuro, e assim sempre acertava o gol como em El Aleph com suas metáforas em histórias inventadas. Fazia com as palavras o que Messi faz com a bola: criava.
Nos anos 1960, o sonho de todo latino-americano era viver em Paris para escrever como o "cronópio"  Júlio Cortázar, o outro craque argentino que lá morava e que criou tantos personagens inesquecíveis que jogavam amarelinha: Horácio, a distraída Maga e seu filho Rocamadour, Morelli, Perico Romero e tantos outros. Um dia, em 1972, ouvi Cortázar falar num Congresso de Literatura Latino-americana nos arredores de Paris, na Abadia de Royaumont, organizado por Jacques Leenhardt, nosso professor de sociologia da literatura. Foi nesse encantamento que redimensionei a minha, a nossa identidade. Somos todos irremediavelmente cronópios.
Ernesto Sábato, com seu desconcertante informe sobre os cegos; Bioy Casares, o inventor de Morel, e Ricardo Piglia com nome falso e respiração artificial seriam escalados em qualquer seleção literária do planeta, da mesma forma que Juan Gelman, esse filho de judeu ucraniano, cuja poesia tem ironia, humor, amor  – Amor que serena, termina? – e está marcada pela dor e pela morte. Lutou contra a ditadura militar que assassinou seu filho e viveu como "um esperançoso sem remédio". No campo da literatura, o segundo gol: Amor 2 x 0 Ódio. Terminou o primeiro tempo.
Locas de Mayo
O segundo tempo começa com a história recente. Um pênalti contra o ódio. Penalidade máxima cobrada pelas mães da Praça de Maio. Os argentinos prenderam os torturadores, incluindo ex-presidentes e generais de quatro estrelas. Reconquistaram a sua história roubada. Golaço: 3 x 0 para o Amor aos hermanos. Às vezes, é preciso conciliar, nesse caso não chame argentinos, mas brasileiros - e essa parece ser uma virtude nossa. Mas se for pra sair pro pau, chamem um argentino - essa é a virtude deles. As benditas locas de Plaza de Mayo não me deixam mentir. É o que chamamos popularmente de raça. Quando no Monumental de Nuñez, em 1993, a Colômbia derrotou a Argentina por 5 x 0, os hermanos morreram lutando com garra até o último minuto.
O quarto gol é no campo do cinema. Se você quer torcer neste domingo contra o adversário da Alemanha, não veja nenhum filme argentino, porque você ficará enfeitiçado. Os hermanos, com pouca grana, estão fazendo filmes de tirar o fôlego. Não foi por ação marqueteira que O Segredo dos seus olhos ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2010. A História oficial, Nove Rainhas, Buenos Aires na era do amor virtual são obras primas, sem falar na delicadeza de Kamchatka, que narra as lembranças de uma criança, cuja família é perseguida pela ditadura. Como sabem contar uma boa história!
Os que torcem contra a Argentina podem alegar que os filmes são geniais, mas que eles tem um único e solitário ator: Ricardo Darín. E eu vos digo que é verdade, mas que eles não precisam de mais nenhum ator, porque Darín vale por mil. 
Finalmente, vem o quinto e último gol que acontece no campo do futebol. Aqui pra nós, falo bem baixinho, que não nos ouçam para não inflar ainda mais o ego hiper-inflado deles, mas quem gosta de ver belas jogadas, ama os argentinos. Maradona e Messi são dois gênios que deram muita alegria, como Garrincha e Pelé. Amor 5 x 0 Ódio á Argentina.
Aos 45 minutos do segundo tempo, nasce o gol de honra na grande área do ethos nacional. Os hermanos são pretensiosos, arrogantes, desabusados, cheios de empáfia, marrentos – dizem as más línguas. Já perguntei a amigos latino-americanos, autores de tais acusações, se os argentinos que conhecem se enquadram nesse perfil. A resposta é sempre: "no, ese es diferente, es mi argentino".Formulei, então, a tese de que argentinos em abstrato são arrogantes, mas os de carne e osso, os amigos, são afáveis e doces.  Exatamente como meu gato León, que se mostra indiferente com quem não conhece, mas não é de porra nenhuma, se desmancha todo com quem gosta.
Qué raro, che! A gente pensa exatamente o contrário: o brasileiro genérico é divertido, alegre, extrovertido, mas o concreto é uma porcaria - me disse um argentino de brincadeirinha, só pra sacanear.
De qualquer forma, o bandeirinha não considera impedimento o fato de os hermanos concretos cultivarem como ninguém o dom da amizade pessoal. O juiz valida o gol. O jogo terminou: Amor 5 x Ódio 1.
Os cronópios
Com tal resultado, neste domingo, estarei torcendo apaixonadamente pela Argentina em lunfardo. Afinal, como já cantou Belchior, sou "apenas um rapaz latino-americano". Podeis obtemperar que os imigrantes alemães deram uma cor nova ao Brasil, que a Alemanha tem créditos para ser amada, com um timaço de primeira nos campos citados: Wagner, Goethe, Thomas Mann, Brecht, Marx, Engels, Hegel, Rosa Luxemburgo, Murnau, Fritz Lang, Fassbinder, Dietrich - o Gerhard, mas também a Marlene de Anjo Azul com sua sensualidade e sua voz rouca e até os artilheiros Müller e Klose.
É verdade, mas os alemães são "famas" - ordenados, disciplinados e realistas, planejam tudo. Já os argentinos são "cronópios" como nós - sonhadores, criativos e anárquicos: improvisam tudo. Por isso, os bairros populares da América Latina, com toda sua diversidade de cores, não se encaixam nesta Alemanha austera e sisuda, mas cabem inteirinhos dentro desta Argentina briosa.
Esta declaração de amor aos hermanos não impede que em 2018, na Rússia, a gente não queira comer o fígado deles. Por isso quero que ganhem no Maracanã: sei que se vitoriosos ficarão in-su-por-tá-veis, mas vai ser um prazer esmagá-los como tricampeões em Moscou. O que seria de nós, brasileiros, se os argentinos não existissem? Sem a rivalidade com eles, nós morreríamos.
Agora, se a Argentina perder no Maracanã - digo, é uma forma de dizer e bato três vezes na madeira toc toc toc -  ah, se a Argentina perder,  meninos do mundo, ide a salvá-la. 
P.S. - Errata: há brasileiros torcendo pela Alemanha que, aliás, merece o nosso carinho e dos meus amigos luteranos do Rio Grande do Sul, bem como dos pomeranos da Giralda Seyferth, da Charlotte Emmerich e do Ismael Tressmann.
P.S - 2 (escrito depois do jogo) . Niños del mundo, id a buscarla!
________
(*) Apropriação indevida do poema España aparta de mi este cáliz (1937) do peruano César Vallejo sobre a guerra civil espanhola. A versão original: Niños del mundo, si cae España - digo, es un decir - salid, niños del mundo; id a buscarla!
 
¡NO LLORES POR MÍ, ARGENTINA!
Niños del mundo, si cae Argentina - digo, es un decir - 
salid, niños del mundo;¡ id a buscarla!
(*)
¿Quién va a caer este domingo épico en el Maracaná? Los brasileños están divididos, pero no entre Alemania y Argentina. No! Les aconsejo a los alemanes que no confíen en las silbatinas ni en los aplausos. No hay brasileño contra ni a favor de Alemania, ni siquiera un mísero hincha. Hans y Fritz, aunque sean campeones de bola, no despiertan pasiones entre nosotros. Nuestra pasión es azul y blanca. Una parte de Brasil hace barra CONTRA Argentina. La otra, a FAVOR de Argentina. Esta pasión será la única en campo. Alemania es apenas un detalle. Podía ser  Kulodelmundistán que no sería diferente.
Es una disputa antigua. A los brasileños les gusta odiar a los argentinos y los argentinos odian amar a los brasileños. Para la hinchada brasileña, el juego no es entre las selecciones de los dos países, sino entre Amor x Odio a Argentina. Hay muchas razones para amar a los hermanos.Escojo cinco en los campos de la música, literatura, cinema, historia y fútbol. Y una razón para odiarlos: el ethos nacional.
¿Por dónde comienzo? Ah, la música! Se deslumbra con Argentina el que haya escuchado a Mercedes Sosa, frágil como un segundo, cantando el clásico chileno de Violeta Parra Gracias a la vida con Chico, Caetano, Milton e Gal. O quien escuchó La Lunita Tucumana de Atahualpa Yupanqui.
El amor por la música argentina es un patrimonio compartido por cualquier latino-americano que tiene el privilegio de conocerla. Una noche de juerga  en Santa Cruz de La Sierra, vi ingenieros bolivianos de la Petrobrás llorar con el paisaje de Catamarca "un pueblito aquí, otro más allá" – y se regocijaron cantando guitarra nochera de los salteños Los Chalchaleros:
Mojada de luz, es mi guitarra nochera, ciñendo voy tu cintura encendida por las estrellas.
El viejo amor
Son tantos los ritmos: tango, milonga, chacarera, chamamé, gato, cueca, zamba – sí, ellos tienen zamba, con ‘z’, en femenino. Brasil con certeza haría barra por Argentina si, en lugar del himno nacional - "al gran pueblo argentino, salud!" – los jugadores entonasen en el Maracaná la Zamba de la Candelaria, de Eduardo Falú, nacida al comienzo de la noche, “cuando la luna lloraba astillas de plata la muerte del sol”. Caminito. O aún la Tonada del viejo amor: “no tengo miedo al invierno con tu recuerdo lleno de sol”.
Descubrí en una peña de Buenos Aires, que el barrio de Aparecida y toda Manaos cabían dentro de Santiago del Estero, cuando oí Como un pájaro en el aire de Cuti y Roberto Carabajal.Allí estaba doña Elisa y sus proezas culinarias:
-  Las manos de mi madre / parecen pájaros en el aire / Historias de cocina / entre sus alas heridas de hambre.
Ni siquiera fue preciso recurrir a Gardel, el Martín Fierro del tango, para hacer un golazo en la arena de la música. En el marcador: Amor por los  argentinos 1 x 0 Odio. El juego podía terminar aquí, pero está apenas comenzando.
En el medio de campo de la literatura, los argentinos tienen muchos crackes. El mayor de ellos, Jorge Luis Borges, novelista y poeta, produjo una obra que contiene todo el fervor de Buenos Aires y la historia universal de la infamia: fantasías, delirios, juegos de espejos, laberintos, senderos que se bifurcan. Ciego y poeta, veía en la oscuridad y siempre conseguía acertar el gol como en El Aleph con sus metáforas en historias inventadas. Hacía con las palabras lo que Messi con la bola: creaba.
En los años 1960, el sueño de todo latino-americano era vivir en París para escribir como el "cronopio"  Julio Cortázar,  otro crack argentino que vivía allí y que jugó rayuela con tantos personajes inolvidables: Horacio, la distraída Maga y su hijo Rocamadour, Morelli, Perico Romero y tantos otros. Un día, en 1972, oí a Cortázar en un Congreso de Literatura Latino-americana en los alrededores de París, en la Abadía de Royaumont, organizado por Jacques Leenhardt, nuestro profesor de sociología de la literatura. Fue en ese encantamiento que redimensioné mi/ nuestra identidad. Somos todos irremediablemente cronopios.
Ernesto Sábato, con su desconcertante informe sobre los ciegos; Bioy Casares, el inventor de Morel, y Ricardo Piglia con nombre falso y respiración artificial serían escalados en cualquier selección literaria del planeta, así como Juan Gelman, ese hijo de judío ucraniano, cuya poesía tiene ironía, humor, amor  – Amor que serena, termina? – y está marcada por el dolor y por la muerte. Luchó contra la dictadura militar que asesinó a su hijo y vivió como "un esperanzoso sin remedio". En el campo de la literatura, el segundo gol: Amor 2 x 0 Odio. Terminó el primer tiempo.
Locas de Mayo
El segundo tiempo comienza con la historia reciente. Un penalti contra el odio. Penalidad máxima. Los argentinos prendieron a los torturadores, incluyendo ex-presidentes y generales de cuatro estrellas. Reconquistaron su historia robada. Golazo: 3 x 0 de Amor a los hermanos. A veces, se necesita conciliar,  en ese caso que no se llame a argentinos, sino a brasileños - esa parece ser una virtud nuestra. Pero si se trata de confrontar, llamen un argentino - esa es su virtud. Las benditas locas de Plaza de Mayo no me dejan mentir. Es lo que llamamos popularmente de raza. Cuando en el Monumental de Núñez en 1993, Colombia derrotó a Argentina por 5 x 0, los hermanos murieron luchando con garra hasta el último minuto.
El cuarto gol está en el campo del cinema. Si alguien quiere hacer barra este domingo contra el adversario de Alemania, que no vea ninguna película argentina, porque si no quedará encantado. Los hermanos, con poca guita están haciendo filmes maravillosos. No fue por lobby que El Secreto de sus ojos ganó el Oscar de Mejor Film Extranjero en 2010. La Historia oficial, Nueve Reinas, Buenos Aires en la era de amor virtual son obras primas, sin hablar de la delicadeza de Kamchatka, que narra los recuerdos de un niño y su familia, perseguida por la dictadura argentina. Y como saben contar historias!
Los que hacen barra contra  Argentina pueden alegar que las películas son geniales pero que  tienen un único y solitario actor: Ricardo Darín. Y yo os digo que es verdad, pero que no precisan de otro actor, porque Darín vale por mil. 
Finalmente, viene el quinto y último gol, ese si en el campo del fútbol. Aquí, que nadie nos oiga, hablo bien bajito, para no inflar todavía más el ego hiperinflado, pero quien aprecia ver lances admirables, ama a los argentinos. Maradona y Messi son dos genios que dieron mucha alegría, como Garrincha y Pelé. Amor 5 x 0 Odio a Argentina.
A los 45 minutos del segundo tiempo, nace el gol de honra en la gran área del ethos nacional. Los hermanos son pretenciosos, arrogantes, llenos de auto-confianza, orgullosos,  – dicen las malas lenguas. Ya pregunté a amigos latino-americanos, autores de tales acusaciones, si los argentinos que conocen se encuadran en ese perfil. La respuesta es siempre: "no, ese es diferente, es MI argentino". Formulé entonces la tesis de que argentinos en abstracto son arrogantes, pero los de carne y hueso, los amigos, son afables y dulces.  Exactamente como mi gato León, que se muestra indiferente con quien no conoce, pero en realidad no araña ni muerde.
Qué raro, che! Uno piensa exactamente lo contrario: el brasileño genérico es divertido, alegre, extrovertido, ya el concreto no es nada de eso - me dijo un argentino de broma, solamente para tomarme el pelo.
De cualquier forma, el juez de línea no considera impedimento el hecho de que los hermanosconcretos cultiven como nadie el don de la amistad personal. El referee valida el gol. Terminó el juego: Amor 5 x Odio 1.
Los cronopios
Con ese resultado, este domingo estaré haciendo barra con pasión por Argentina. En lunfardo. Al final, como ya cantó Belchior, soy "apenas um rapaz latino-americano". Podéis contra argumentar que los inmigrantes alemanes dieron un color nuevo al Brasil, que Alemania tiene créditos para ser amada, con un equipo de primera en los campos citados: Wagner, Goethe, Thomas Mann, Brecht, Marx, Engels, Hegel, Rosa Luxemburgo, Murnau, Fritz Lang, Fassbinder, Dietrich - o Gerhard, así como Marlene de Ángel Azul,  hasta los artilleros Müller y Klose.
Es verdad, pero los alemanes son los "famas" de Cortázar - ordenados, disciplinados y realistas, planifican todo. En cambio los argentinos son "cronopios" como nosotros - soñadores, creativos y anárquicos: siempre improvisando. Por eso, los barrios populares de América Latina con toda su diversidad de colores no se encajan en esa Alemania austera y ordenada, pero caben enteros dentro de esa Argentina briosa.
Esta declaración de amor a los hermanos no impide que en 2018, en Rusia, uno no quiera devorarles el hígado. Por eso quiero que ganen en el Maracaná: sé que si victoriosos van a quedarse in-so-por-ta-bles, pero va a ser un placer arrasarlos como tricampeones.Pensando bien, ¿qué seria de los brasileños si no existiese Argentina? Nuestro espejo al revés. Sin esa rivalidad, no seríamos lo que somos. 
Ahora, si Argentina pierde - digo, es un decir – y doy tres toques en la madera toc toc toc -  ah, si Argentina pierde, niños del mundo, id a buscarla.
P.S.1 - Errata: hay brasileños haciendo barra por Alemania que por cierto, merece nuestro cariño y el de mis amigos luteranos de Rio Grande do Sul y de los pomeranos de Giralda Seyferth, de Charlotte Emmerich y de Ismael Tressmann.
P.S.2 (escrito después del partido).: Niños del mundo, id a buscarla.
 
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(*) Apropiación indebida del poema España aparta de mi este cáliz (1937) del peruano César Vallejo sobre la guerra civil española. La versión original: Niños del mundo, si cae España - digo, es un decir - salid, niños del mundo; id a buscarla!


Violencia policial contra el MST de Brasil: crónica de una escalada represiva
Por Ana Saldanha – Traducción Diego Ferrari
En el día 4 de noviembre de 2016, una represiva acción policial brasileira se extendió desde la región centro-sur del Estado de Paraná, hasta el Estado de San Pablo, en la que fue denominada operación “Castra” (En Latín: terreno o edificio donde se reagrupan tropas en la Roma Antigua). A través de un fuerte dispositivo policial, cuyo elevado grado de violencia terminó en la invasión de la Escuela Florestan Fernandes (ENFF), la acción tuvo como objetivo la prisión de militantes del Movimiento de los Trabajadores Rurales Sin Tierra (MST).
Paraná: 7 de abril de 2016
La tierra es volcánica, sanguínea, y no nos suelta. Se pega a nuestros zapatos, a las ropas, a la piel: es la tierra paranaense. A 170 km (en línea recta) de las cataratas de Foz de Iguazu, y a 120 Km de la ciudad de Cascavel, queda la pequeña ciudad del interior de Paraná, Quedas de Iguaçu. A 10 km de esta pequeña ciudad, construida a la medida de las necesidades, y bajo los auspicios de la empresa brasileña Araupel (exportadora de madera), se encuentra el campamento D. Tomás Balduíno, ocupación del Movimiento de los Trabajadores  Rurales Sin Tierra (MST) (el último, hasta la fecha, en el estado de Paraná).
La ocupación fue iniciada el 6 de Julio de 2015, por aproximadamente 1500 familias, y  exige, para los fines de Reforma Agraria, la entrega de 12.000 hectáreas de tierras públicas, explotadas ilegalmente por la empresa extractivista Araupel.
Fruto de la fusión, en 1972, de dos grupos brasileros de extracción de madera (Madeireira Giacomet S.A. e Marodin S.A. Exportação), actuantes desde 1910 en la región de Paraná, la entonces creada Giacomet-Marodin Indústria de Madeiras S.A. cambió su firma para Araupel S.A., en el año 1997. Extrayendo, desde la fusión de las dos industrias extractivistas, madera de pinos y de eucaliptos, situados en terrenos pertenecientes a la União (Estado Brasileño), la empresa actúa, irregularmente “en parte de una zona considerada pública, con un histórico conflicto y degradación ambiental en la región, con el reemplazo de las florestas nativas por un gran monocultivo de pino y araucaria, destinado a la industria de madera” (Nota Oficial del INCRA, 8 de abril de 2016).
Es en este contexto que, hace aproximadamente 20 años, el MST inicia una serie de ocupaciones de tierras ilegalmente explotadas por la Araupel, en un conflicto que se prolonga hasta la actualidad, y del cual resultó el asesinato, en 1997, de dos trabajadores Sin Tierra.
La primera ocupación, iniciada en 1996, y que se prolongó durante el año siguiente, fue acompañada por una acción judicial. Es así que, en 1997 y 1998, la Araupel es desapropiada (que fue, no obstante, fruto de una indemnización por parte del Instituto Nacional de Reforma Agrária) de una área considerada improductiva (del Título Pinhal Ralo), de cerca de 25 mil hectáreas. En esta área, antes ocupada por los trabajadores Sim Terra, fueran asentadas 1.550 familias (asentamientos Ireno Alves dos Santos, creado en 1997, y asentamiento Marcos Freire, creado en 1998), cuya producción agrícola constituye, hoy en día, la base de la economía del municipio de Rio Bonito do Iguaçu.
La lucha por la tierra para la Reforma Agrária, mientras tanto, continuó.
En 2003, con el objetivo de encontrar una solución para otra ocupación del MST, esta vez en un área de Quedas do Iguaçu, en el Título Rio das Cobras, el Incra realizó la compra de 23 mil hectáreas de ese mismo Título, a la empresa Araupel. En consecuencia, nace, en ese mismo año, el asentamiento Celso Furtado (con mas de 1.000 familias asentadas). En mayo de 2015, la Justicia Federal determina, sin embargo, que las 23 mil hectáreas del Título Rio das Cobras pertenecen a la União (Estado Nacional), por lo cual, Araupel es condenada a devolver las indemnizaciones recibidas anteriormente por el INCRA, por el uso indebido del territorio público.
A la luz de esa decisión, o sea, teniendo en vista que la Justicia Federal había determinado que el área del Titulo Rio de las Cobras (Quedas do Iguaçu) es pública, la União/Incra entró, todavía en 2015, con una acción civil pública para cuestionar el área remanente, de 12 mil hectáreas, donde desde entonces se encuentra el campamento D. Tomás Balduíno. La empresa Araupel se recusa, sin embargo, a entregar las tierras que explota ilegalmente en el Título Rio das Cobras, por lo que el caso tramita, actualmente, por los tribunales paranaenses.
En síntesis, de las cinco ocupaciones realizadas, desde 1996, por el MST (la última resultó en el actual campamento D. Tomás Balduíno), ya se logró, por el camino de la lucha, la conformación de tres asentamientos.
Ahora bien, fue en esa tierra roja de resistencia que en el día 7 de abril de 2016 dos trabajadores Sin Tierra (Vilmar Bordim y Leonir Orback) fueron asesinados, por la policía militar paranaense.
Este hecho nos recuerda que el conflicto por la tierra en Paraná, contra el latifundio y el modelo del agronegocio, es hecho, desde las primeras ocupaciones, en 1996, de lucha, pero también de sangre: “La empresa Araupel que se constituye en un poderoso imperio económico y político, usando de la usurpación de tierras públicas, del uso constante de la violencia contra trabajadores rurales y poseedores, muchas veces actúa en complicidad con el aparato policial civil y militar, y habiendo financiado inclusive campañas políticas de autoridades públicas, tal como el jefe de la Casa Civil del Gobierno Beto Richa, Valdir Rossoni” (Nota del MST, 4 de noviembre de 2016).
En el día 7 de abril de 2016, 25 trabajadores Sin Tierra se encontraban dentro de una camioneta (en el perímetro del área que la justicia había declarado como pública, en 2015), a aproximadamente 6km del campamento D. Tomás Balduíno, cuando son sorprendidos por policías militares paranaenses y agentes de seguridad privada contratados por la empresa. Los policías y los agentes de seguridad privada comienzan, entonces, una sucesión de tiros (más de 120) sobre la camioneta, provocando siete heridos y dos muertos, causadas por balas recibidas en la espalda. Los ocupantes de la camioneta intentan, mientras tanto, de diversas formas, abandonarla: mientras se protegían de los tiros sucesivos de las fuerzas militarizadas, trabajadores Sin Tierra saltan por las ventanas y se adentran en la selva , corriendo, bajo el tiroteo, en diferentes direcciones, intentando llegar hasta el campamento. El local de la emboscada fue aislado por la policía militar, impidiendo a los acampados y familiares de los heridos y muertos aproximarse, como también permitiendo a la propia policía la alteración de la escena del crimen, con la intención de justificar posteriormente el asesinato de los dos trabajadores Sin Tierra, así como los tiros indiscriminados contra los acampados.
En la secuencia de la lucha que se viene desarrollando contra los intereses de la empresa Araupel, líderes del campamento venían siendo constantemente amenazados de muerte, ya antes de la emboscada, incluso por miembros de las fuerzas policiales del Estado. Estas amenazas continuaron y se intensificaron después del asesinato de los dos acampado, principalmente a través de llamadas anónimas (directamente a los perseguidos) y de las redes sociales.
Paraná, Mato Grosso do Sul y São Paulo: 4 de noviembre de 2016
En función de la criminalización de los dirigentes Sin Tierra del Estado de Paraná, la Policía Civil paranaense emitió, en la mañana del día 4 de noviembre de 2016, 14 pedidos de prisión, 10 mandatos de búsqueda y captura y 2 de conducción coercitiva. Esta acción judicial y militar (las acusaciones son diversas, desde robo y daño cualificado, invasión de la propiedad, incendio criminoso, cárcel privado, lesión corporal, hasta portación ilegal de armas de fuego de uso restricto e irrestricto) tiene como principal objetivo incriminar líderes de los campamentos Dom Tomás Balduíno e Herdeiros da Luta pela Terra, y, consecuentemente, la criminalización de la lucha por la Reforma Agraria: “Desde mayo de 2014 aproximadamente 3 mil familias acampadas, ocupan áreas usurpadas por la empresa Araupel. Esas fueron usurpadas y por eso declaradas por la Justicia Federal tierras públicas, pertenecientes a la União (Estado Nacional) que deben ser destinadas para la Reforma Agraria” (Nota del MST, 4 de noviembre de 2016).
La operación, denominada Castra, se desarrolló en Quedas do Iguaçu, en Francisco Beltrão y en Laranjeiras do Sul (en la región centro-sur de Paraná), donde fueran detenidos ocho trabajadores Sin Tierra, e incluso en São Paulo y en Mato Grosso do Sul.
En Mato Grosso do Sul, 3 patrullas policiales, con placas de Paraná, entraron en el Centro de Investigación y Capacitación Geraldo Garcia (CEPEGE), en Sidrolândia, sin pedido de captura. Ninguno de los Sin Tierra que se encontraban en el lugar fue, a pesar de todo, preso.
Mientras tanto, miembros de la Policía Civil invadieron la Escuela Nacional Florestan Fernandes (ENFF), en São Paulo, una vez mas sin ningún tipo de pedido de captura, ni autorización judicial: cabe destacar además, que los policías, de forma arbitraria e ilegal presentaron un mandato de prisión, a través de una foto de Whatsapp, y por lo tanto sin ningún tipo de validez.
Inaugurada en enero de 2005, la ENFF es fruto del trabajo voluntario, durante 5 años, de mas de 1.000 militantes del MST, de 112 asentamientos y de 230 campamentos, de 20 estados de Brasil, organizados en un total de 25 brigadas de trabajo. Diferentes organizaciones y personalidades garantizaron, por cierto, el financiamiento de la construcción de la escuela, como José Saramago, Sebastião Salgado o Chico Buarque. La escuela promueve cursos formales (en convenio con Universidades Públicas) e informales (principalmente de formación política e ideológica de militantes de diferentes organizaciones políticas, sociales y populares de los cinco continentes).
Con una violencia que no es desconocida por los mil militantes Sin Tierra, los policías (que se habían transportado en 10 patrulleros) entraron fuertemente armados por la ventana de la recepción y saltaran por el portón de la entrada principal, amenazando los trabajadores Sin Tierra y amigos que ahí se encontraban; las amenazas y los intentos de sometimiento terminaron con los disparos de tres tiros de balas reales. Frente a la inmediata de quienes allí se encontraban, y que (a pesar de la violencia de éstos) obstaculizaron el avance de los policías, así como de abogados que estaban presentes en la ENFF en ese momento, los policías fueron obligados a retroceder. Dos militantes, mientras tanto, fueron detenidos y acusados de desacato a la autoridad (uno de ellos, un profesor de 64 años, víctima de Parkinson, fruto de la violencia policial, tuvo una costilla quebrada), y fueron liberados después de prestar declaración.
Poco tiempo antes, en otra entrada de la ENFF, un policía ya había amenazado a los trabajadores Sin Tierra, gritándole a una militante allí presente: “alguien va a salir muerto de acá” (registrado en video). Cabe destacar que en el momento de la invasión de la policía civil, mas de 250 estudiantes se encontraban presentes en la escuela.
Denunciando “el avance de la represión contra la lucha por la tierra, donde predominan los intereses del agronegócio asociado a la violencia del Estado de Excepción” el MST reivindica “que la tierra cumpla su función social y que sea destinada para el asentamiento de las 10mil familias acampadas en Paraná” (Nota del MST, 4 de noviembre de 2016).


miércoles, 9 de noviembre de 2016

Teatro Brasil

Historia del teatro de Brasil
El teatro de Brasil, nació desde la época colonial, en el siglo XVI, de la mano de los jesuitas, quienes introdujeron una cultura diferente, en su intento de catequizar a los indígenas.

Las primeras formas de teatro que se conocieron, fueron las de los portugueses, basadas en la Biblia y con carácter pedagógico. El mayor exponente de la época fue el Padre Anchieta.

Teatro de Brasil

En el siglo XVII, disminuyen las representaciones de obras de autoría jesuítica, al menos las de clara intención de catequesis. Se identifica esta época con una etapa de crisis. Las representaciones de la época, estaban inspiradas en las luchas de su tiempo y se ponían en escena durante las fiestas religiosas o cívicas.

Se destacan las piezas presentadas durante las aclamaciones a D. João IV, en 1641, además de obras de los franciscanos del Convento de Santo Antonio, en Rio de Janeiro, representadas para distracción de la comunidad. En las fiestas de instauración de la provincia franciscana de la Inmaculada Concepción de 1678, se realizaron representaciones.

En el siglo XVII, se destaca la figura de Manuel Botelho de Oliveira (Bahía 1636-1711), que es el primer poeta que publicó dos obras en español. (”Hay amigo para amigo” y “Amor, engaños y celos).
Recién en la segunda mitad del siglo XVIII, comienzan a presentarse piezas teatrales con cierta frecuencia. Los escenarios estaban en palcos montados sobre las plazas públicas, también en las iglesias, y ocasionalmente en algún palacio de gobierno. El teatro poseía carácter educacional, lo que llevó a la presentación en locales fijos, las Casas de Ópera o Casas de Comedia, que aparecieron en todo el país.

A continuación surgieron las primeras compañías teatrales, con la contratación de actores para ciertas presentaciones en las Casas de Ópera, durante todo el año, o por unos cuantos meses.

Cultura del teatro de Brasil:


A fines del siglo XVIII y comienzos del XIX, los actores pertenecían a las clases bajas, generalmente eran mulatos. La participación de la mujer estaba prohibida, debido a los prejuicios que pesaban sobre la actividad. Los personajes femeninos eran interpretados por hombres travestidos.

El repertorio tenía gran influencia extranjera, se presentaban obras de Moliére, Voltaire, Maffei, Metastásio, Goldoni. Entre los autores brasileños están: Luis Alves Pinto, Alexandre de Gusmão, Claudio Manuel da Costa.
En 1808, la familia real traslada su corte a Brasil e impulsa la inauguración de una serie de teatros. Estos sirvieron de sedes para las compañías teatrales, lo cual aumentó la afluencia de público. La primera compañía auténticamente brasilera fue la de Niteroi, en 1833, dirigida por Joao Caetano.

Durante la campaña de independencia, las plateas se volvieron escenarios de manifestaciones y disturbios. El nacionalismo reinante llevó a despedir a los actores extranjeros.

En estos tiempos, los géneros preferidos por el público eran el vaudeville, la revista y la parodia.
Posteriormente llegará el realismo importado de Francia, que introduce la temática social en el teatro deBrasil .
Mucho más tarde, en 1975, Augusto Boal, influido por Brecha, desarrolla técnicas de teatro callejero para obreros, en su libro “Teatro del oprimido”.


Actualmente la actividad teatral abarca todo el territorio de Brasil, con centros en Rio de Janeiro, San PabloBelo Horizonte y Salvador.

Tomado de: http://www.viajeabrasil.com/cultura/historia-del-teatro-de-brasil.php



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miércoles, 2 de noviembre de 2016

Cuentos del Brasil 2

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El bloqueo

Murilo Rubião (Brasil)
Próximos está a llegar éste su tiempo,
Y sus días no están remotos.
Isaías, XIV.

1

Al tercer día de haber dormido en el pequeño departamento de un edificio recién terminado, oyó los primeros ruidos. Normalmente tenía el sueño pesado y aun después de despertarse le tomaba tiempo integrarse al nuevo día, confundiendo pedazos de sueño con fragmentos de la realidad. No dio importancia, de inmediato, a la vibración de los vidrios, atribuyéndola a una pesadilla. La oscuridad del aposento contribuía a fortalecer esa frágil certeza. El barullo era intenso. Venía de los pisos superiores y se parecía a los producidos por las palas de demolición. Encendió la luz y consultó el reloj: la tres. Le pareció raro. Las normas del condominio no permitían un trabajo de esa naturaleza en plena madrugada. Pero la máquina proseguía su impiedosa tarea, los sonidos aumentaban, y crecía la irritación de Gerión contra la compañía inmobiliaria que le garantizara una excelente administración. De repente los ruidos cesaron.
Se durmió nuevamente y soñó que estaba siendo aserrado a la altura del tórax. Se despertó presa del pánico: una poderosa sierra ejercitaba sus dientes en los pisos de arriba, cortando material de gran resistencia, que se pulverizaba al desintegrarse.
Oía a intervalos explosiones secas, el movimiento de una nerviosa demoledora, el martillar acompasado de un mazo sobre los postes. ¿Estarían construyendo o destruyendo?
Del temor a la curiosidad, titubeó entre averiguar lo que estaba pasando o juntar los objetos de mayor valor y marcharse antes de la destrucción final. Prefirió correr el riesgo en vez de volver a su casa, que abandonara, de prisa, por motivos de orden familiar. Se vistió, a través del oscilante ventanal, miró la calle, la mañana soleada, pensando si aún vería otras.
Apenas abrió la puerta, le llegó al oído el machacar de varias brocas y poco después estallidos de cabos de acero que se rompían, el ascensor precipitándose a trompicones por el pozo hasta reventar allá abajo con una violencia que hizo temblar al edificio entero.
Retrocedió despavorido, trancándose en el departamento, con el corazón latiéndole desordenadamente -Es el fin, pensó -. Mientras tanto, el silencio casi se recompuso, oyéndose apenas a lo lejos estallidos intermitentes, el lijar irritante de metales y concreto.
Por la tarde, la calma volvió a edificio, dándole coraje a Gerión para acercarse a la terraza a averiguar la magnitud de los estragos. Se encontró a cielo abierto. Cuatro pisos habían desaparecido, como si hubieran sido cortados meticulosamente, limadas las puntas de las vigas, aserrados los maderos, trituradas las lajas. Todo reducido a fino polvo amontonado en los rincones.
No veía rastro de las máquinas. Tal vez ya estuvieran distantes, transferidas a otra construcción, concluyó aliviado. Descendía tranquilo las escaleras, silbando una melodía de moda, cuando sufrió el impacto de la decepción: toda la gama de ruidos que había escuchado durante el día le llegaba de los pisos inferiores.


2

Telefoneó a la portería. Tenía pocas esperanzas de recibir explicaciones satisfactorias sobre lo que estaba ocurriendo. El propio portero lo atendió:
-Obras de rutina. Le pedimos disculpas, principalmente por ser usted nuestro único inquilino. Hasta ahora, claro.
-¿Qué rayos de rutina es esa de arrasar con el edificio?
-Dentro de tres días todos se acabará -dijo, colgando el fono.
-Todo acabado. Bolas.- Se encaminó hacia la diminuta cocina ocupada, en buena parte, por latas vacías. Preparó sin entusiasmo la comida, harto de enlatados.
¿Sobreviviría a las latas?- Miraba melancólico la reserva de alimentos, hecha para durar una semana.
Sonó el teléfono. Soltó el plato, intrigado con la llamada. Nadie conocía su nueva dirección. Se había inscrito en la compañía de Teléfonos y había alquilado el departamento con nombre falso. Seguramente sería una llamada equivocada.
Era su mujer, lo que aumento su desánimo.
-¿Cómo me descubriste? -Oyó una risita al otro lado de la línea (La gorda debía estar comiendo bombones. Tenía siempre algunos al alcance de la mano.)
-¿Por qué nos abandonaste, Gerión? Regresa a casa. No sobrevivirás sin mi dinero. ¿Quién te dará un empleo? (A esas alturas Margarerbe ya estaría lamiéndose los dedos embarrados de chocolate o limpiándose en la bata estampada de rojo, su color predilecto. La puerca)
-Vete al diablo. Tú, tu dinero, tu gordura.


3

Se había desligado momentáneamente de los ruidos, inmersos en la desesperanza.
Buscó en el bolsillo un cigarrillo y verificó con desagrado que tenía pocos. Se le había olvidado aprovisionarse de más paquetes. Mentó la madre.
Con la mano sobre el fono colgado, Gerión hizo una mueca al oír nuevamente el sonido de la campanilla.
-¿Papá?
Se le dibujó una sonrisa triste:
-Hijita.
-Podrías regresar y leerme ese libro del caballo verde.
La parte aprendida de memoria terminaba y Seatéia comenzaba a tartamudear:
-Papi. Nos gustaría que vinieras, pero sé que no quieres. No vengas, si ahí estás mejor.
La comunicación fue interrumpida bruscamente. Desde el comienzo lo había sospechado y luego se convenció de que su hija había sido obligada a llamarlo, en un intento de explotarlo emocionalmente. En esos instantes estaría siendo golpeada por no haber seguido las instrucciones de la madre al pie de la letra.
Asqueado, lamentaba el fracaso de su fuga. Volvería a compartir el mismo lecho con su esposa, encogido, el cuerpo de ella ocupando dos tercios de la cama. El ronquido, los gases.
Pero no podría permitir que el odio de Margarerbe fuera transferido a Seatéia. Ella recurriría a todas las formas de tortura para vengarse de él, a través de su hija.


4
Los ruidos habían perdido su fuerza inicial. Disminuían, cesaron por completo.


5

Gerión descendía la escalera indeciso en cuanto a la necesidad del sacrificio.
Ocho pisos abajo, la escalera terminó abruptamente. Transido de miedo, con un pie en el aire, retrocedió, cayéndose hacia atrás. Sudaba, las piernas le temblaban.
No conseguía levantarse, estaba como pegado al escalón. Tardó en recuperarse. Pasado el vértigo, vio abajo el terreno limpio, como si nunca hubiera habido allí una construcción. Ninguna señal de maderos, pedazos de fierros, ladrillos, apenas el fino polvo amontonado a los lados del terreno.
Regresó al departamento aún bajo la conmoción del susto. Se dejó caer en el sofá. Impedido de regresar a casa, experimentó el gusto de la plena soledad. Conocía su egoísmo, desentendiéndose de los problemas futuros de su hija. Tal vez la quería por la obligación natural que tienen los padres de amar a sus hijos.
¿Había querido a alguien? -Desvió el curso de su pensamiento, cómoda fórmula para escapar a la vigilancia de la conciencia.
Aguardaba paciente una nueva llamada de su mujer y, esperándola, surgió en sus ojos un sádico placer. Hacía tiempo que venía aguardando esa oportunidad, que le permitiera devolver con dureza las humillaciones acumuladas y vengarse de la permanente sumisión a la que era sometido por los caprichos de Margarerbe, llamándolo a toda hora y delante de los sirvientes; parásito, incapaz.
Escogería bien sus adjetivos. No llegó a usarlos: una corriente luminosa destruyó el alambre telefónico. En el aire flotó durante unos segundos una polvareda de colores. Se cerraba el bloqueo.


6
Después de algunas horas de absoluto silencia, ella volvía: ruidosa, mansa, sorda, suave, estridente, monocorde, disonante, polifónica, rítmica, melodiosa, casi musical. Se meció en un vals bailado hacía varios años.
Sonidos ásperos espantaron la imagen venida de su adolescencia, superpuesta luego por la de Margarerbe, que él mismo ahuyentó. Se despertó avanzada la noche con un terrible grito que resonaba por los corredores del edificio. Permaneció inmóvil en la cama, en agónica espera: ¿emitiría la máquina voces humanas? -Prefirió creer que había soñado, pues lo único real era el barullo monótono de una excavadora que funcionaba en los pisos cercanos.
Más tranquilo, analizaba los acontecimientos de los días anteriores, concluyendo que, por lo menos, los ruidos venían espaciados y que el aserrar de fierros y madera ya no le herían los nervios. Caprichosos e irregulares, cambiaban rápidamente de un piso a otro, desorientando a Gerión en cuanto a los objetivos de la máquina.
-¿Por qué una y no varias, ejecutando funciones diversas y autónomas, como inicialmente creyó - La certeza de su unidad había calado hondo en él sin aparente explicación pero de manera irreducible. Sí, única y múltiple en su acción.


7
Los ruidos se aproximaban. Adquirían suavidad y constancia haciéndole pensar que pronto llenarían el departamento.
Se acercaba el momento crucial y le costaba contener el impulso de ir al encuentro de la máquina que había perdido mucho de su antiguo rigor o realizaba su trabajo con deliberada morosidad, perfeccionando la obra, para gozar poco a poco de los instantes finales de la destrucción.
A la vez del deseo de enfrentarla, descubrir los secretos que la hacían tan poderosa, tenía miedo del encuentro. Se enredaba entretanto en su fascinación, afinando el oído para captar los sonidos que, en aquella hora, se agrupaban los primeros rayos de luz.
Sin poder resistir la expectativa, abrió la puerta. Hubo una súbita ruptura en la escala de los ruidos y escuchó aún el eco de los estallidos que desaparecieron aceleradamente por la escalera. En los rincones de la pared comenzaba a acumularse un polvo ceniciento y fino.
Repitió la experiencia, pero la máquina persistía en esconderse, sin que él supiera si por simple pudor o porque aún era temprano para mostrarse, desnudando su misterio.
El ir y venir del destructor, sus constantes fugas, redoblaban la curiosidad de Gerión que no soportaba la espera, el temor de que ella tardase en aniquilarlo o que jamás lo destruyese.
Por las grietas seguían las luces de colores, formando y deshaciendo en el aire un continuo arco iris: ¿tendría tiempo de contemplarla en la plenitud de sus colores?
Cerró la puerta con llave.

Murilo Rubião (Brasil)
Breve reseña sobre su obra
Escritor y periodista brasilero nacido en Minas Gerais en 1916. En 1942 se graduó de la Facultad de Derecho. Trabajó como redactor de Folha de Minas y director de Radio Inconfidência. En 1966 organizó el suplemento literario del diario O Estado de Minas Gerais. Se desempeñó como jefe de gabinete del gobierno de Minas Gerais y fue agregado cultural de Brasil en España entre 1956 y 1961. Falleció en septiembre de 1991.
En 1947 publicó su primer libro de cuentos, El ex mago. Después vendrían La estrella roja (1953), Los dragones y otros cuentos (1965), El pirotécnico Zacarías (1974), El invitado (1974), La casa del girasol rojo (1978) y El hombre del bonete gris y otras historias (1990).

El bloqueo aparece en la antología 16 cuentos latinoamericanos, publicada por Editorial Aique.


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Basura

Luis Fernando Veríssimo

Se encuentran en el área de servicio. Cada uno con su bolsa de basura. Es la primera vez que se hablan.
- Buenos días...
- Buenos días.
- La señora es del 610
- Y, el señor del 612
- Sí.
- Yo aún no lo conocía personalmente...
- De hecho...
- Disculpe mi atrevimiento, pero he visto su basura...
- ¿Mi qué?
- Su basura.
- Ah...
- Me he dado cuenta que nunca es mucha. Su familia debe ser pequeña...
- En realidad sólo soy yo.
- Mmmmmm. Me di cuenta también que usted usa mucha comida enlatada.
- Es que yo tengo que hacer mi propia comida. Y como no sé cocinar.
- Entiendo.
- Y usted también...
- Puede tutearme.
- También perdone mi atrevimiento, pero he visto algunos restos de comida en su basura. Champiñones, cosas así...
- Es que me gusta mucho cocinar. Hacer platos diferentes. Pero como vivo sola, a veces sobra...
- Usted... ¿Tú no tienes familia?
- Tengo, pero no son de aquí.
- Son de Espírito Santo.
- ¿Cómo lo sabe?
- Veo unos sobres en su basura. De Espírito Santo.
- Claro. Mi madre me escribe todas las semanas.
- ¿Ella es profesora?
- ¡Esto es increíble! ¿Cómo adivinó?
- Por la letra del sobre. Pensé que era letra de profesora.
- Usted no recibe muchas cartas. A juzgar por su basura.
- Así es.
- Pero, el otro día tenía un sobre de telegrama arrugado.
- Así fue.
- ¿Malas noticias?
- Mi padre. Murió.
- Lo siento mucho.
- Él ya estaba viejito. Allá en el Sur. Hacía mucho tiempo que no nos veíamos.
- ¿Fue por eso que volviste a fumar?
- ¿Cómo es que sabes?
- De un día para otro comenzaron a aparecer paquetes de cigarrillos arrugados en su basura.
- Es cierto. Pero conseguí dejarlo de nuevo.
- Yo, gracias a Dios, nunca fumé.
- Ya lo sé. Pero he visto unos vidriecitos de pastillas en su basura...
- Tranquilizantes. Fue una fase. Ya pasó.
- ¿Peleaste con tu pololo, no es verdad?
- ¿Eso, también lo descubriste en la basura?
- Primero el buqué de flores, con la tarjetita, tirado en la basura. Después, muchos pañuelitos de papel.
- Es que lloré mucho, pero ya pasó.
- Pero incluso hoy vi unos pañuelitos...
- Es que estoy un poquito resfriada.
- Ah.
- Veo muchos crucigramas en tu basura.
- Claro. Sí. Bien. Me quedo solo en casa. No salgo mucho. Tú me entiendes.
- ¿Polola?
- No.
- Pero hace unos días tenías una fotografía de una mujer en tu basura. Parecía bonita.
- Estuve limpiando unos cajones. Cosa del pasado.
- No rasgaste la foto. Eso significa que, en el fondo, tú quieres que ella vuelva.
- ¡Tú estás analizando mi basura!
- No puedo negar que tu basura me interesó.
- Qué divertido. Cuando escudriñé tu basura, decidí que quería conocerte. Creo que fue la poesía.
- ¡No! ¿Viste mis poemas?
- Vi y me gustaron mucho.
- Pero, ¡si son tan malos!
- Si tú creías que eran realmente malos, los habrías rasgado. Y sólo estaban doblados.
- Si yo supiera que los ibas a leer...
- Sólo no los guardé porque, al final, los estaría robando. Si bien que, no sé: ¿la basura de la persona aún es propiedad de ella?
- Creo que no. Basura es de dominio público.
- Tienes razón. A través de la basura, lo particular se vuelve público. Lo que sobra de nuestra vida privada se integra con las sobras de los demás. La basura es comunitaria. Es nuestra parte más social. ¿Esto será así?
- Bueno, ahí estás yendo harto lejos con la basura. Creo que...
- Ayer, en tu basura...
- ¿Qué?
- ¿Me equivoqué o eran cáscaras de camarón?
- Acertaste. Compré unos camarones enormes y los descasqué.
- ¡Me encantan los camarones!
- Los descasqué, pero aún no los comí. Quien sabe, tal vez podamos...
- ¿Cenar juntos?
- Por qué no.
- No quiero darte trabajo.
- No es ningún trabajo.
- Pero vas a ensuciar tu cocina.
- Tonterías. En un instante limpio todo y pongo los restos en la basura.
- ¿En tu basura o en la mía?


Basura, título original "Lixo", cuento de Luis Fernando Veríssimo, incluido en su libro de crónicas y cuentos O Analista de Bagé e, posteriormente, antologado en O Novo Conto Brasileiro por Malcolm Silverman (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1985).


 
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El hombre que sabía javanés


Alfonso Henriques de Lima Barreto (Brasil - Río de Janeiro, 1881-1922)



          En una confitería contaba yo cierta vez a mi amigo Castro las alternativas de mi vida aventurera, las convicciones de que claudiqué y las responsabilidades a las que no guardé la debida consideración, para poder vivir. Incluso aquella ocasión en que residiendo en Manaos, en la cual me vi obligado a ocultar mi calidad de bachiller, para obtener más confianza de los clientes, que afluían a mi escritorio de "hechicero" y de adivino. Eso era lo que yo le contaba.
          Mi amigo me escuchaba callado, pendiente de mis palabras, gustando de aquel mi Gil Blas vivido, hasta que en una pausa de nuestra conversación, ya agotados los vasos de cerveza, me observó interesado:
          - ¡Tu vida ha sido una cosa bien divertida, Castelo!
          - Solamente así se puede vivir... Esto de tener una ocupación única: salir de casa a ciertas horas, volver a otras, cansa finalmente, ¿no te parece? ¡Yo no sé cómo he podido aguantar allá, en el consulado!
          - Eso cansa, sí, es cierto; pero no es eso lo que me admira. Lo que me llama la atención es que hayas corrido tantas aventuras aquí, en este Brasil pacato y burocrático.
          - ¿Y por qué no? Aquí mismo, caro amigo Castro, se pueden encontrar y vivir bellas páginas de la vida. ¡Imagínate tú que yo he sido hasta profesor de javanés!
          - ¿Cuándo? ¿Acaso a tu regreso del consulado?
          - No; antes. Y precisamente fui nombrado cónsul por eso.
          - Cuenta, entonces, cómo fue la cosa. ¿Aceptas otro vaso de cerveza?
          - Acepto.
          Mandamos traer otra botella, llenamos los vasos nuevamente y continué mi historia:
          - Yo había llegado hacía muy poco tiempo a Río de Janeiro y me encontraba literalmente en la miseria. Vivía huído de la casa de pensión, sin saber en donde ganar el dinero, cuando leí en el "Journal do Comercio" el anuncio siguiente: "Se precisa un profesor de lengua javanesa. Contestar por escrito etc. etc." Me dije entonces que el asunto me convenía; además esta era una colocación que no tendría muchos concurrentes; y si lograse dominar por lo menos cuatro palabras, era cosa hecha. Salí del café en donde me encontraba, anduve por las calles, imaginándome que yo era un profesor de javanés, ganando dinero, viajando en tranvía y sin encontrar personas desagradables, víctimas, particularmente. Sin darme cuenta me encaminé a la Biblioteca Nacional. No sabía bien qué clase de libro tendría que pedir; mas entré, entregué el sombrero en la portería, recibí la tarjeta y subí escaleras arriba. Ya en la ventanilla de pedidos, solicité la "Gran Enciclopedia", en la letra "J", seguro que en el artículo correspondiente a Java encontraría elementos de la lengua javanesa. Dicho y hecho. Me enteré de que Java era una gran isla del archipiélago de Sonda, colonia holandesa, y el javanés, lengua aglutinante del grupo malayo-polinésico, poseía una literatura digna de nota, escrita en caracteres derivados del antiguo alfabeto hindú. La "Enciclopedia" me indicaba algunos trabajos sobre la lengua malaya, y sin titubear consulté uno de ellos, allí citados. Copié el alfabeto, como también su pronunciación figurada, y salí. Anduve por las calles, de aquí para allá, rumiando letras y más letras. En mi cabeza danzaban jeroglíficos; de vez en cuando consultaba mis notas; entraba en los jardines y escribía con un palo en la arena de los paseos columnas de signos, para fijarlos bien en mi mente y habituarme en ese ejercicio de la escritura.

          "Ya de noche, cuando pude entrar en la pensión, sin que me notaran, como para evitar preguntas indiscretas del casero, continué aún en mi cuarto deletreando el alfabeto malayo, y lo hice con tanto ahinco, con tal firmeza, que a la mañana siguiente lo sabía perfectamente de memoria.
          "Me convencí de que aquella lengua era la más fácil del mundo y salí; mas no tan temprano, que evitase el encuentro del encargado de las habitaciones. Verme y encararse conmigo fue la misma cosa: "Señor Castelo: ¿cuándo saldamos su cuenta?" Respondile entonces, con la más encantadora esperanza: "En fecha muy breve... Espere un poco... Tenga paciencia... Seré nombrado profesor de javanés, y ..." Me interrumpió de improviso: "¿Qué diablo es eso de profesor de javanés, señor Castelo?" Me agradó el interés, por cierto bastante divertido del hombre y, aprovechando la oportunidad, quise herirlo en su patriotismo de buen portugués: "Javanés es una lengua que se habla cerca de Timor. ¿Sabe en dónde está eso?".


          "Oh!, alma ingenua... Aquel hombre se olvidó de mi deuda y me dijo con su hablar fuerte de los portugueses: "Francamente, yo muy bien no sé dónde está eso ni lo que es, pero tengo entendido que son unas tierras que tenemos por el lado de Macao. ¿Sabe algo de eso, señor Castelo?".
          "Animado por esta escapatoria afortunada que me proporcionó el asunto javanés, volví nuevamente a buscar el anuncio. En efecto, allí estaba. Decidí animosamente proponerme como profesor de idioma oceánico. Redacté la respuesta. Pasé por el diario y dejé la carta. Volví nuevamente a la Biblioteca Nacional y continué con mis estudios de javanés. No realicé grandes progresos en ese día; ignoro si por entender que era suficiente con el conocimiento del alfabeto o por haberme agradado más los datos sobre literatura y bibliografía que el estudio del idioma, que era precisamente lo que tendría que enseñar...


          "Al cabo de dos días, me llegó una carta para presentarme en la casa del doctor Manuel Feliciano Soares Albernaz, barón de Jacuecanga, en la calle conde de Bonfim, no recuerdo bien el número. Es preciso que no olvides que entretanto continué estudiando mi malayo, esto es, el tal javanés. Además del alfabeto, me informé del nombre de algunos autores, como de diversas frases, preguntas y respuestas, tal como: "Cómo está usted" y dos o tres reglas más de gramática, amén del alfabeto y unas veinte palabras más del léxico.


          "¡No te puedes dar una idea de las grandes dificultades que hallé para proporcionarme los cuatrocientos reis del viaje! Te aseguro que es mucho más fácil aprender javanés, puedes estar cierto, que encontrar unas míseras monedas. Finalmente, tuve que decidirme por ir a pie. Llegué sudado; y, con maternal cariño, las viejas plantas, que se perfilaban en la alameda, delante de la casa del aristócrata, me recibieron, me acogieron y me reconfortaron. En toda mi vida fue ese el momento en que sentí cierta simpatía por la naturaleza.


          "Era una casa enorme que parecía estar desierta, más no sé porqué me vino el pensamiento, ante esa contemplación, de que se notaba, más que pobreza, algo así como cansancio y dejadez. Debía estar despintada desde hacía muchos años; descascaradas las paredes, rotas las salientes del tejado, de esas tejas revestidas de otros tiempos, desguarnecidas aquí y allí, como bocas desdentadas o mal cuidadas.


          "Miré un poco el jardín y vi la pujanza vengativa de las plantas silvestres junto a las otras domésticas, a varias de las cuales habían expulsado completamente. Algunas, escondidas, casi ocultas, trataban apenas de vivir entre tanta asfixia. Llamé. Tardaron bastante en responder. Por fin, llegó un viejo negro africano, cuyas barbas de algodón rizado, lo mismo que su rala cabellera, daba a su fisonomía una aguda expresión de ancianidad, dulzura y sufrimiento.

          "En la sala había una galería de retratos: arrogantes señores de luenga barba se perfilaban encuadrados en inmensas molduras doradas, y dulces perfiles de señoras, con peinados imponentes, grandes abanicos, que parecían querer subir a los aires, enfundadas en los redondos y abultados vestidos, como globos; mas de todas aquellas cosas, a las cuales el polvo daba mucha más antigüedad y respeto, lo que más me agradó fue un bello jarrón de porcelana de China o de la India, o algo parecido... Aquella pureza de la alfarería, la fragilidad, la ingenuidad del dibujo, aquel brillo tenue de luna, me decían que aquel objeto había sido hecho por las manos de una criatura, de sueños, para encanto de los ojos ya viejos y cansados, desengañados del mundo...

          "Esperé un instante al dueño de la casa. Tardó un poco. Un tanto inseguro, con un gran pañuelo de hilo en las manos, tomando de vez en cuando el viejo rapé de antaño, me inspiró un sentimiento de respeto cuando lo vi llegar. Tuve deseos de marcharme. Aunque no fuera él el discípulo, era siempre un crimen engañar a ese anciano, cuya vejez traía asociada a mi mente algo de augusto, de sagrado. Dudé, pero me quedé. Adelantándome, dije: "Yo soy el profesor de javanés, que el señor ha pedido". "Tome asiento -me respondió el viejo-, ¿Es usted de Río de Janeiro?" "No señor -respondí-, soy de Canavieiras. "Cómo -volvió a preguntar el viejo-. Hable un poco más alto, soy un poco sordo". "Soy de Canavieiras, de Bahía" -insistí yo. "¿En dónde hizo sus estudios?" "En San Salvador". "¿Y en dónde aprendió javanés?" indagó él, con aquella su manera insistente tan peculiar de los viejos.

          "Yo no contaba con esa pregunta, mas inmediatamente inventé una mentira. Le conté que mi padre era javanés. Tripulante de un navío mercante, llegó a Bahía, y se estableció cerca de la localidad de Canavieiras como pescador, se casó luego y prosperó, y precisamente aprendí el javanés con mi padre".

          - ¿Y lo creyó? Pero ¿y la cara, el físico? -preguntó mi amigo, que hasta entonces permanecía en silencio.

          - No soy -repliqué- muy diferente de un javanés. Estos mis cabellos recios, duros y bastante gruesos, como mi piel de color mate, pueden darme muy bien un aspecto de mestizo malayo... Tú sabes bien que, entre nosotros, hay de todo: indios, malayos, tahitianos, malgaches, incluso hasta godos. Es una comparsa de razas y de tipos de lo más extraños, capaz de dar envidia al mundo entero.
          - Esta bien, amigo mío, puedes continuar.

          - El viejo me escuchaba atentamente, consideró mi físico, pareciéndome que me creía en efecto hijo de malayo, y me preguntó con dulzura: "¿Entonces está dispuesto a enseñarme javanés?" La respuesta saliome sin querer: "Esta bien". "Usted ha de quedar admirado -añadió el barón de Jacuecanga- que yo con esta edad desee aún saber algunas cosas más..."

          "- No tengo porqué admirarme. Muchos ejemplos se han visto en el mundo, por cierto muy aleccionadores".

          "- Lo que yo quiero, mi estimado joven..." "Castelo" -me adelanté yo-. Lo que yo quiero, mi estimado señor Castelo, es cumplir un juramento de familia. No sé si el señor sabe que yo soy nieto del consejero Albernaz, aquel que acompañó a don Pedro I, cuando abdicó. A su regreso de Londres trajo al Brasil un libro en una rara lengua, por el cual tenía máxima estimación. Un hindú o un siamés se lo dio en Londres, en prueba de agradecimiento por no sé cual servicio prestado por mi abuelo. Al morir mi antepasado, llamó a mi padre y le dijo: "Hijo, tengo este libro aqui, escrito en javanés. Quien me lo dio me aseguró que evita desgracias o trae felicidades para el que lo tiene. Yo no puedo saber si tal cosa es cierta o no lo es. En todo caso, guárdalo; mas si quieres que el hado que me dictó el sabio oriental se cumpla, procura que tu hijo lo entienda, para que siempre nuestra raza sea feliz". Mi padre -continuó el viejo barón- no tuvo mucha fe en esas historias; con todo, guardó el libro. A las puertas de la muerte, me lo dio y me dijo la misma sentencia, lo mismo que prometiera a su padre. Al comienzo, poco caso hice de esa historia del libro. Lo dejé en la biblioteca de la casa y me dediqué a mis actividades. Llegué incluso a olvidarme; mas de un tiempo a esta parte, he pasado por tantos disgustos, tantas desgracias acibararon mi vejez que me acordé de ese talismán de la familia. Tengo que leerlo y saber su contenido, comprenderlo, si no quiero que mis últimos días anuncien el desastre de mi posteridad; y para entenderlo, claro está que preciso saber el javanés. Esto es todo".

          "Callóse el viejo y noté que sus ojos se le habían puesto húmedos. Discretamente, los secó con el pañuelo y me preguntó si quería ver el libro. Le respondí que sí. Llamó al criado, le dio las instrucciones y me dijo que había perdido todos los hijos y sobrinos, quedándole solamente una hija casada, cuya prole, entretetanto, estaba reducida a un hijito, débil de cuerpo y de poca salud, delgado e impresionable. Llegó el libro, era un viejo infolio, antiguo, encuadernado en cuero, impreso en grandes letras en un papel amarillo y grueso. Le faltaba la portada y por tal razón no se podía saber la época de su impresión. Conservaba aún unas páginas de prefacio, escritas en inglés, en donde leí que se trataba de ciertas historias del príncipe Fulanga, escritor javanés de mucho mérito.

          "Luego informé de eso al viejo barón que no se percató que yo había llegado allí por el conocimiento del idioma inglés. Y quedó encantado al saber la profundidad de mis conocimientos malayos. Estuve largo rato examinando las páginas de tal cartapacio, haciendo como que leía o deletreaba magistralmente aquella curiosidad, hasta que por fin contratamos las condiciones de los honorarios y las horas, comprometiéndome a que, antes de un año, el viejo pudiese leer ese mamotreto de una manera cabal.

          "Poco tiempo después daba mi primera lección, mas el viejo no fue tan diligente como yo. No conseguía aprender a distinguir ni a escribir siquiera cuatro letras. En fin, con la mitad del alfabeto llevamos más de un mes y el señor barón de Jacuecanga no llegó a dominar la materia: aprendía y desaprendía fácilmente.

          "La hija y el yerno (me imagino que hasta ese momento nada sabían de la historia de tal libro) llegaron a tener noticias de los estudios del viejo; pero no se molestaron por eso. Hallaron graciosa tal preocupación y se imaginaron que eran cosas para distraerse o manías de carcamal.

          "Aunque te extrañe, caro amigo Castro, el yerno quedóse profundamente admirado al ver la capacidad del profesor de javanés. ¡Qué cosa singular! El no se cansaba de repetir: "¡Es algo asombroso! ¡Tan joven y ya con semejantes conocimientos! ¡Si yo supiese eso dónde estaría!"

          "El marido de doña María de la Gloria (así se llamaba la hija del barón) era juez, hombre relacionado e influyente; mas no ocultaba ante todos su admiración por mi javanés. Por otra parte, el barón estaba contentísimo. Al cabo de dos meses desistió de semejante aprendizaje y me pidió que le tradujese, tres días por semana, fragmentos del libro encantado. Le bastaba con entenderlo; nada se oponía a que otra persona tradujese el libro y él lo escuchase. Así se evitaba la fatiga del estudio y cumplía el encargo.


          "Debo decirte que hasta hoy nada sé de javanés, mas urdí una historia bien tonta, dándole las características de un viejo cronicón, como muchos que conocía. ¡Cómo escuchaba él aquellas tonterías! ... Quedaba extático, como si estuviese oyendo palabras de un ángel. ¡Y más méritos se acrecentaban ante sus ojos! ...

          "Me dio alojamiento en su casa, me colamaba de regalos, y bien pronto me aumentó el sueldo. Pasaba, en fin, una vida regalada.

          "Contribuyó mucho a eso la circunstancia de haber recibido una herencia de un pariente olvidado que residía en Portugal. El buen viejo atribuía la causa a mi javanés; y yo mismo casi llegué a creer también tal cosa.

          "Fui perdiendo mi remordimiento, aunque siempre tuve miedo de que el día menos pensado apareciese alguien versado en javanés, y se evidenciara mi desconocimiento de tal idioma malayo. Ese era mi temor, que llegó a acentuarse cuando el viejo barón me mandó con una carta al vizconde de Carurú, para que me hiciese entrar en la carrera diplomática. Aduje con calor mi falta de elegancia, mi fealdad, mi aspecto tagalo. "¡Qué importa! -me replicaba- . Vaya, muchacho; usted sabe javanés, y eso basta!" Fui. El vizconde me mandó a la Secretaría de Asuntos Extranjeros con diversas recomendaciones. ¡Fue un éxito rotundo!

          "El director llamó al jefe de la sección, diciéndole: "¡Vea, amigo, un hombre que sabe javanés!; qué portento!"

          "Los jefes de las diversas secciones me llevaron a los oficiales y éstos a los amanuenses y uno de éstos me miró con odio, no sé si de envidia o de admiración... Y todos me decían: "¿Con que sabe javanés? ¡Qué idioma difícil! ¡No hay nadie, salvo usted en esta casa, que sepa javanés!"

          "El amanuense de marras que me miró con odio, acudió entonces: "Ciertamente, usted sabe javanés, mas yo se canaque; ¿conoce usted esa lengua?" Le dije que no y pasé a ver al ministro.

          "El alto funcionario levantóse, puso sus manos en las caderas, luego arregló los lentes sobre la nariz y preguntó: "¿Así que sabe javanés?" Le respondí que sí; y a sus preguntas de dónde y en qué lugar, le conté la vieja historia de mi padre javanés... "Bien -dijome el ministro-, usted no puede entrar en la diplomacia: su físico no lo favorece... Lo mejor sería un buen consulado en Asia o tal vez en Oceanía. Por el momento no tenemos vacante, pero como pienso hacer una reforma, usted entrará. De hoy en adelante, queda usted agregado al Ministerio en mi gabinete; además, en breve se realizará un congreso de linguística en el exterior y usted representará al Brasil. ¡Estudie, lea particularmente a Hovelacque, Max Muller y algunos otros!"

          "Imagínate tú que yo, sin saber nada de javanés, me encontraba empleado en virtud de esos conocimientos, como también nombrado para representar al Brasil en un congreso de sabios...
          "El viejo barón murió en ese interin, pasando el legado del libro al yerno con el deseo de que éste lo transmitiese a su vez al nieto, cuando tuviera la edad conveniente. Me dejó también en el testamento alguna cosa.

          "Me puse a estudiar con afán las lenguas malayo-polinésicas; pero todo era inútil. Bien nutrido, bien vestido, bien dormido, no tenía la energía necesaria para hacer entrar en mi cabeza aquellas cosas tan raras. Compré libros, me subscribí a revistas, tales como: "Revue Anthropologique et Linguistique", "Proceedings of the English", "Oceanic Association", "Archivio Glottologico Italiano", ¡y el diablo!... Y lo más curioso del caso es que mi fama crecía. En las calles, los informados de mis cualidades, me señalaban diciendo a los otros: "Allí va el sujeto que habla javanés". En las bibliotecas los gramáticos me consultaban sobre la colocación de los pronombres en tal o cual lugar de las islas de Sonda. Recibía cartas de los eruditos del interior, los diarios citaban mis conocimientos y me negué a aceptar varios alumnos deseosos de aprender el javanés. Por invitación de la dirección del "Journal do Comercio" escribí un artículo de cuatro columnas sobre la literatura javanesa antigua y moderna".

          - ¿Cómo es que tú sabías eso? -me interrumpió atento Castro.
          - Muy sencillo: primero describí la isla de Java, con el auxilio de diccionarios y obras geográficas, y luego comencé a citar nombres a más no poder.

          - ¿Y nunca dudaron? -me inquirió interesado mi amigo.

          - Nunca. Es decir, una vez casi quedé perdido. La policía prendió un sujeto, un marinero bronceado, que sólo hablaba una lengua extraña, misteriosa. Llamaron a diversos intérpretes, pero ninguno lo entendía. Fui también llamado, con todos los respetos que mi sabiduría merecía, naturalmente. Tardé en ir, pero me decidí finalmente. El marinero ya estaba en libertad, merced a las gestiones del cónsul holandés, con el cual se pudo entender por media docena de palabras holandesas. ¡El tal marinero era javanés!... ¡Aquello fue terrible!

          "Llegó entretanto la época del congreso, y como era natural, partí para Europa. ¡Qué delicia! Asistí a la inauguración y también a las sesiones preparatorias. Me inscribieron en la sección de tupi-guaraní, y marché luego para París. Antes, empero, hice publicar en el "Mensajero de Basilea" mi retrato, con una cantidad de notas biográficas y bibliográficas. Cuando regresé, el presidente me pidió disculpas por haberme colocado en aquella sección. No conocían mis trabajos y juzgaron que, por ser un americano-brasileño, me estaba naturalmente indicada la sección de tupi-guaraní. Acepté las explicaciones y hasta hoy no pude escribir mis obras sobre el javanés, para mandárselas, tal como se lo había prometido...

          "Concluído el congreso, mandé publicar extractos de artículos del "Mensajero de Basilea" en Berlín, en Turín y en París, donde los lectores de mis obras me rodearon y les ofrecí un banquete que me costó casi diez mil francos, lo que me restaba de la herencia del crédulo barón de Jacuecanga...

          "No perdí tiempo ni mi dinero. Llegué a ser una gloria nacional, y al saltar en el muelle a mi regreso, recibí una ovación de todas las clases sociales y del Presidente de la Republica, quien días después me invitaba a un almuerzo en su compañía. A los seis meses fui nombrado consul en La Habana, en donde estuve seis años y adonde regresaré muy en breve, para perfeccionarme en los estudios de las lenguas malayas, melanesias y de la Polinesia".

          - ¡Es fantástico! -observó Castro, tomando su vaso de cerveza.
          - Pues mira tú, si no fuera porque me encuentro contento con mi profesión, ¿sabes lo que sería?
          - ¿Qué?
          - ¡Bacteriólogo eminente! ¿Vamos?
          - Vamos... 


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Una historia confusa
Caio Fernando Abreu febrero

Era jueves. Como en los últimos jueves, él estaba nervioso y traía un sobre en la mano. Tiró el sobre encima de la mesa, y comenzó a caminar por el cuarto.

- ¿Otra carta? –pregunté.
No respondió. Sólo hizo un movimiento impaciente con los hombros, que podía significar demasiadas cosas. Pero no dije nada. Yo, entonces, abrí y leí las palabras escritas con cuidado:
Te vi a través de las rosas y había en tus ojos una ansiedad muda. Algo así como si quisieras hablar conmigo. Juro que a la salida intenté acercarme, pero tuve miedo. Sé que igual vamos a ser amigos. No quiero forzar nada. Hoy día es Domingo antes del almuerzo. La casa está vacía. Me gustaría haberte escrito después de esa noche. Es increíble, pero hace dos décadas, ese mismo día de la semana, a esa misma hora, yo estaba naciendo.

- Es bonito –me arriesgué a decir.- Un poco juvenil, tal vez. Pero bonito. Al final, la adolescencia siempre es bonita.

- Él tiene 20 años.

-¿Él? ¿Cómo sabes que es él y no ella?

- Yo creo, lo siento así. Una mujer no escribiría esas cosas. No sé, la forma de escribir, algo.

- Puede ser –le dije.

- Y había otra cosa, creo que no te la mostré. Él decía que estaba cansado, eso mismo, cansado y no cansada.

- No me acuerdo –mentí. – Él puede estar mintiendo. Esa fecha, por ejemplo, esa fecha puede ser inventada.
Él evitó mirarme mientras me contaba:

- Fui a preguntarle a un astrólogo. Él nació el 22 de Septiembre de 1954. Entre las diez y el medio día. Es virgo, dice el astrólogo, del último día de Virgo. Por los cálculos, su ascendente debe ser Escorpión.

- ¿Ascendente?

- Es el signo que. –Él levantó los ojos, irritado. – Escucha: tú no vas a querer ahora que te dé una clase de astrología, ¿no?

- No, no. Sólo quería saber lo que quiere decir eso.

- Quiere decir que él debe ser inteligente. Muy inteligente. Y secreto, misterioso, intenso. Sólo por las cartas uno ya percibe que él tiene cierta…estructura. Las cartas están bien escritas, la gramática es siempre correcta.

- Es verdad –dije.- Correctísima.
Él se sentó al borde de la cama.

- No aguanto más. Esto lleva casi dos meses. Necesito saber quién es esa persona.
Sentado a los pies de la cama, yo no sabía qué decir.

- Él sabe todo sobre mí, mis horarios, todo. A veces habla de personas que conozco, de lugares a los que voy. Debe estar siempre cerca, debe conocer mucha gente que conozco.

- Estás muy agitado.- Claro. ¿Cómo quieres que esté? Cada vez que recibo una carta de éstas quedo así. Me da una sensación extraña, salgo a la calle con la impresión de que estoy siendo observado. Alguien que no sé quién es, me acompaña en todos mis movimientos.

- Con amor –dije.
Él encendió un cigarro y siguió el humo hasta el techo:

- ¿Amor? No sé. Es medio paranóico. Parece que quiere enloquecerme de a poco.

- O para que te intereses en él.
Se levantó, de improviso, y se acostó en la mesa. De espaldas, yo sólo podía ver sus hombros curvos y sus dos manos sujetando la cabeza.

- Me imagino las historias más increíbles. A veces creo que es alguien que sólo quiere divertirse conmigo.

- No. –Y dije por segunda vez: – Eso es amor.

- ¿Será? Hay cosas, hay algunas cosas que escribe que lo parecen. No sé, parecen verdades, ¿entiendes? Él me toca, se mueve conmigo. Tal vez yo esté todo acomplejado porque alguien está dispuesto a prestarme atención.

- Eso es amor- repetí por tercera vez. Él caminó hasta la ventana. Noté que miraba las hojas de las palmeras de calle moviéndose por el viento norte.

- A veces tengo ganas de pagarle a un detective. Pero las pistas son pocas. Sellos comunes, sobre común, cada día una firma de una agencia diferente. Y ese tipo de máquina es de lo más común.

- Lettera 22.

- Tiró la colilla del cigarro por la ventana, y se dio vuelta de repente mirándome a los ojos.

- ¿Cómo sabes eso?

- Bueno, cualquiera que usa una máquina de escribir reconoce el logo. Es inconfundible –afirmé. Y cambié de asunto: – Pero no deja de ser bonito.

- Bonito e infernal.

- Y antiguo.

- Cartas anónimas. Parece cosa de romance del siglo pasado. Romance epistolar. Platónico. – Suspiró profundamente. – Pero es necesario saber luego quién es este muchacho. Nunca nadie se interesó tanto en mí.
Volvió a sentarse en la mesa, y encendió otro cigarro. Le acerqué el cenicero:

- Tú siempre fumas más los jueves.
Él se rió.

- Ahora los miércoles también. Me quedo pensando si al día siguiente va a llegar otra carta – Aspiró profundo, cerrando los ojos. Y prosiguió, soltando el humo: – Tengo algo escrito para él.

- ¿Qué?

- Que tengo algo escrito para él, escondido.

- ¿Tú no le contaste nada a Martha?

- ¿Estás loco? Tú sabes lo celosa que es, sólo te he contado a ti. Me tengo que esconder para escribir.
Encerrado en el escritorio, me quedo pensando que debe haber una especie de espíritu que sale por la ventana cuando estoy escribiendo. Siempre dejo la ventana abierta cuando escribo para él, después vuela por los tejados, atraviesa las calles de la ciudad y las paredes para llegar hasta donde él está, ¿entiendes?

- ¿Y qué haces con las cartas que escribes?
- Las guardo bajo siete llaves. Tal vez un día pueda entregárselas personalmente.
Yo también encendí un cigarro

- Y…¿qué le dices en tus cartas?

- Le pido socorro. Le digo que mi matrimonio es un horror, que ya llevo 3 años de ese horror que no termina. ¿Sabes que a la Martha, ahora, le dio por llamarme fofo? ¿Hay algo más odioso? Los domingos me pide parte del diario y me dice “mira, fofo, necesitamos aprovechar esta liquidación, fofo, dura sólo hasta el día 15, fofo”.

- Pero la Martha es una mujer tan…especial.

- Antes de casarse. Después, todas las mujeres se transforman en débiles mentales. Haces bien en no entrar en eso.
Apagué el cigarro.

- ¿Y qué más dicen las cartas?
El se apoyó en la mesa. Una de las manos apoyaba la cabeza, y la otra pasaba, lenta, por el borde de la madera. Como acariciándola.

- Le digo que a veces tengo ganas de tener un amigo como esos que teníamos en nuestra adolescencia. Esos a los que les contabas todo, absolutamente todo. Y que, en realidad, uno no sabe si es tu amigo o tu hermano.

- O amante.

- O amante – él repitió. Se tiró otra vez sobre la cama, sacó una hoja arrugada del bolso y leyó: – Yo digo que estoy dispuesto a cualquier cosa, y lo digo así: “Quédate cerca mío. Mírame, tócame, dime cualquier cosa. O no digas nada, pero quédate cerca. No seas idiota, no dejes que esto se pierda, que se convierta en polvo, que se convierta en nada. De aquí a poco vas a crecer y encontrar todo esto ridículo. Antes que todo se pierda, mientras todavía pueda decir sí, acércate”.

Dobló la hoja y volvió a meterla en el bolso, más arrugada. Nos miramos. Yo no sabía qué decir. El se hundió en la cama, se dio vuelta hacia la pared. Me quedé escuchando:

- Te hablo a ti como si fueras él. Si tú puedes ayudarme, si él pudiera ayudarme. Es tan difícil. Salgo a la calle y me quedo mirando a todos los niños de 20 años, como si cualquiera de ellos pudiese ser él. Siento cosas que no entiendo del todo. No me gusta no entender lo que siento. No me gusta pelear contra lo que no conozco. Nunca viví nada similar. Un viento fuerte abrió la ventana, haciendo que las cenizas del cenicero se desparramaran en la mesa. Él pareció un niño, encogido sobre la cama. Seguí escuchándolo:

- Ya tengo 34 años, no puedo sentir las cosas como si tuviera 15. Tú lo sabes, tenemos casi la misma edad. ¿Cuántos tienes ahora?

- 33 –le dije.

- Pues eso, tú lo sabes bien. No estamos en edad para enredarnos en esos delirios.

- ¿Crees que no? –pregunté. Pero él continuó hablando sin escucharme.

- Es tan extraño saber que hay alguien pensando en mí todo el tiempo. Alguien que no conozco. Y que tiene 20 años. Me quedo pensando cosas locas, no puedo parar.

- ¿Qué cosas? –pregunté en voz baja. – ¿Qué cosas piensas?
Él pasó su mano por la pared blanca:

- Acostarme a su lado. Sin ropa. Abrazarlo con fuerza. Besarlo. En la boca. – Retiró su mano de la pared y la puso junto a su cuerpo, en el medio de las piernas. – Debe ser el viento norte, ese exceso de luz, la primavera llegando, la luna casi llena. No sé, discúlpame. Estoy muy confundido.
Se quedó callado. Miraba por la ventana como si estuviera viendo algo, más allá de las palmeras, algo que yo no conseguía ver. Seguía sin saber qué decir. Me acerqué para estar más cerca, para poder extender mi mano y tocar su pelo desordenado. ¿Y si no tuviera 20 años, ese muchacho -pensé en preguntar-, te seguiría gustando? Resolví no decir nada. Detuve mi mano en el aire, y la traje de vuelta para tomar otro cigarro. Seguí cerca de él. Cerca, muy cerca. Era otro jueves, de septiembre, y desde el inicio de Agosto andábamos muy confundidos los dos.
Título Original: Uma história confusa


El cuento se encuentra en el libro Ovelhas Negras (1995)
 
Traducción: Roberto Santander



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